Foi uma frase, dita no calor de uma derrota, que colocou Renato Gaúcho no olho do furacão. Ao comentar as dificuldades de Marino Hinestroza no Vasco, o treinador afirmou que o jogador colombiano precisa de muito tempo para se adaptar ao futebol brasileiro, apontando uma diferença grande, sobretudo no aspecto tático. A repercussão foi imediata: virou manchete no continente, incendiou as redes e entrou na conta que resultou na sua saída de São Januário.
Passada a poeira, porém, vale um exercício desconfortável: e se, na essência, o Renato tivesse razão? Não como sentença sobre um passaporte, mas como leitura de um padrão. Porque, ao varrer o mapa do futebol brasileiro, a lista de colombianos que chegaram recentemente e vêm rendendo abaixo do esperado não é curta.
Um a um, o retrato que incomoda
Comece pelo Athletico. Portilla chegou como aposta e não entregou o que se esperava — hoje aparece abaixo do esperado e virou reserva, cercado de críticas fáceis de encontrar em qualquer busca. No próprio Vasco, Rojas e Hinestroza figuram entre os alvos preferidos da irritação da torcida, enquanto Cuesta acumula falhas com frequência preocupante.
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No Grêmio, o caso de Enamorado é quase simbólico: apenas um gol em 33 jogos, número que sozinho explica boa parte da desconfiança da arquibancada. No Cruzeiro, Néyser Villarreal é cobrado justamente pelo que deveria ser seu ponto forte — a quantidade de gols que desperdiça virou assunto recorrente entre os torcedores.
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E há o retrato mais eloquente de todos, no Flamengo: Carrascal soma, nesta temporada, o mesmo número de gols e de expulsões. Um dado que, por si só, resume a montanha-russa de um talento que oscila entre o lampejo e o prejuízo.
O placar da desconfiança
- Enamorado (Grêmio): 1 gol em 33 jogos
- Carrascal (Flamengo): mesmo número de gols e de expulsões na temporada
- Portilla (Athletico): abaixo do esperado e reserva
- Rojas e Hinestroza (Vasco): entre os mais criticados pela torcida
- Cuesta (Vasco): falhas recorrentes
- Néyser Villarreal (Cruzeiro): cobrado pelos gols perdidos
Tem ainda o Cassierra, que aterrissou no Atlético cercado de expectativa e virou saco de pancadas nas redes. Basta pesquisar o nome para esbarrar em reações duras da torcida, do tipo “um dos piores que já vi” — o tom, convenhamos, diz muito sobre a paciência curta do nosso futebol.
As exceções existem, e são importantes, inclusive, no Vasco
Seria injusto, e falso, transformar isso em regra absoluta. Há colombianos que deram muito certo e caíram nas graças de suas torcidas. Andrés Gómez, no próprio Vasco, é titular e representante do clube em grande palco. Arias e Viveros também se firmaram e mostraram que o problema não está no lugar de nascimento.
São esses nomes que impedem o debate de descambar para o preconceito barato. O talento colombiano existe, é abundante e, quando bem aproveitado, encanta. A questão é outra.
O problema não é o passaporte, é a dinâmica
O que a fala do Renato tocou, quase sem querer, foi num ponto real: o futebol brasileiro tem uma lógica própria. Exige adaptação rápida, é fisicamente violento, taticamente exigente e, principalmente, impaciente. As torcidas daqui não dão o tempo de maturação que um jogador recém-chegado costuma precisar. Erra duas vezes, já é “ruim”. Some numa partida, já é “mercenário”.
Some a isso um ingrediente que também não pode ser varrido para debaixo do tapete: alguns atletas passam mesmo a impressão de não estarem dispostos a evoluir — o caso de Hinestroza é o exemplo mais citado nesse sentido. Quando falta entrega de um lado e sobra cobrança do outro, o resultado é essa coleção de contratações que prometiam e travaram.
Renato pagou caro por dizer em voz alta algo que boa parte do meio pensa em silêncio. Levou a pecha de arrogante, virou meme, saiu do Vasco. Mas, olhando a foto de agora — do Grêmio ao Flamengo, do Cruzeiro ao Athletico —, a sensação é a de que ele não estava falando por falar. Estava, à sua maneira, descrevendo a realidade. E a realidade, como diria o clichê, às vezes dói.
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