As negociações bilionárias para a venda da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Vasco ganharam contornos jurídicos internacionais nesta quinta-feira (26). A diretoria cruz-maltina e o empresário Marcos Lamacchia pretendem discutir formalmente com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a implementação de um modelo administrativo europeu para viabilizar a compra do clube sem burlar as novas e rigorosas regras de fair play financeiro. A sinalização dessa intenção já foi repassada de forma preliminar e informal à Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), com o claro objetivo de agendar uma reunião definitiva sobre o tema nos próximos dias de paralisação esportiva.
O grande obstáculo jurídico que paira sobre a operação de mais de R$ 2 bilhões, que prevê o pagamento integral das dívidas da SAF e fortes investimentos estruturais no Rio de Janeiro, reside nos laços familiares do comprador. O investidor interessado é filho direto de José Roberto Lamacchia e enteado da atual presidente do Palmeiras, Leila Pereira. O artigo 86 do Sistema de Sustentabilidade Financeira estabelece uma clara regra “anti-laranja” no esporte, proibindo expressamente que parentes de até segundo grau (incluindo o grau de afinidade) detenham o controle majoritário ou exerçam influência significativa sobre dois clubes distintos que disputam a mesma divisão nacional de elite.
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A solução europeia do Blind Trust (Fundo Cego)
Para evitar que a transação seja bloqueada pelos reguladores esportivos ou que o Vasco sofra graves sanções disciplinares, como a perda de pontos na tabela ou a cassação da licença oficial de funcionamento, as partes estudam a adoção de um mecanismo financeiro conhecido como Blind Trust, que se traduz como um fundo cego de investimentos. Essa complexa estrutura jurídica consiste em afastar totalmente o investidor do controle direto e da gestão esportiva diária da instituição adquirida, criando uma barreira intransponível e independente entre o dono do capital e a administração do futebol.
O mecanismo protetivo já é amplamente debatido nos corredores de São Januário e está previsto dentro do próprio escopo de regras da entidade nacional para casos de conflitos de interesse. Na prática, a aplicação desse formato garantiria que o comprador aportasse todo o dinheiro exigido em contrato para a aquisição e o sustento da operação cruz-maltina, mas a gestão esportiva e administrativa seria conduzida exclusivamente por terceiros independentes e sem qualquer ligação com as suas demais empresas. Esse distanciamento forçado ocorreria de forma temporária, durando apenas até o momento em que a sua madrasta deixasse a presidência do rival paulista no fim da temporada de 2027.
Exemplos de sucesso na UEFA e os próximos passos da Vasco SAF
O modelo estratégico desejado pela diretoria vascaína possui exemplos muito bem-sucedidos no futebol europeu recentemente. A agência nacional já estuda os casos práticos validados pela UEFA (União das Associações Europeias de Futebol) para lidar com a polêmica multipropriedade. O caso mais emblemático envolveu o famoso City Football Group (CFG), que precisou transferir provisoriamente a sua participação acionária no Girona para um fundo cego independente para garantir que o time espanhol e o poderoso Manchester City disputassem a badalada Champions League na mesma temporada esportiva sem violar nenhuma norma de governança continental.
O Vasco trabalha com uma engenhosa estratégia paralela de mercado enquanto o “fundo cego” não é finalizado nos bastidores jurídicos. A direção planeja recuperar 100% das ações que estão travadas na Justiça para, em seguida, vender a fatia de 90% para o empresário paulista de forma parcelada. Para não envolver o investidor neste primeiro momento e não encarecer os custos processuais, o clube associativo compraria a parte que não lhe pertence e reaveria todo esse montante financeiro posteriormente através dos pesados aportes do empresário. A agência nacional da CBF manterá o sigilo absoluto sobre o caso e só avaliará as documentações técnicas da operação quando o pedido de compra for formalmente protocolado nas próximas semanas de negociações.
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